Quase 30 anos após o declínio da produção do algodão na Paraíba, a atividade está sendo retomada e promete alavancar a economia dos municípios que foram, no passado, os maiores produtores no setor, como Sousa, Patos, Itabaiana e Campina Grande. O resgate da cultura algodoeira no Estado está tendo início a partir da produção mecanizada, com a inserção de tecnologias modernas no campo para vencer obstáculos, como a praga do ‘Bicudo’, um dos principais responsáveis pela decadência do algodão em 1983.
A retomada começou em setembro de ano passado, com a plantação de 475 hectares de lavoura, nas Várzeas de Sousa, no Sertão, através de uma parceria entre o Grupo Santana, do Rio Grande do Norte e a Bayer, empresa alemã, que está atuando na atividade por meio de filial do Mato Grosso. Com um investimento de mais de R$ 2 milhões, já foram colhidas mais de 700 toneladas de algodão em apenas 280 dos 475 hectares. Até o final da colheita, o grupo estima que sejam colhidas 1,2 mil de toneladas. O grupo ainda pretende revitalizar a cultura em parceria com produtores locais para a expansão da atividade.
A produção mecanizada com base tecnológica pode garantir a ascensão da cultura do algodão, que está sendo desenvolvida nas Várzeas de Sousa, através do plantio de uma semente geneticamente modificada pela multinacional Bayer, que atua no mundo todo nos setores de saúde e ciências agrícolas. A semente do algodão foi desenvolvida em 2008 na filial da empresa, no Estado do Mato Grosso, e o primeiro experimento está sendo feito no Sertão paraibano.
O Grupo Santana possui mais de mil hectares de terras nas Várzeas de Sousa, das quais, foram destinadas 475 para o primeiro plantio de algodão. Na parceria, o Grupo Santana comprou 7,5 mil quilos da semente desenvolvida pela Bayer, para multiplicação do campo genético e, após a colheita, toda a safra será vendida para a própria Bayer. A semente será comercializada para os Estados de Mato Grosso, Bahia e Goiás, os maiores produtores de algodão do País. Já a pluma será beneficiada pelo Grupo Santana, na cidade de Alto dos Rodrigues, no Rio Grande do Norte, para ser comercializada com as indústrias têxteis do Nordeste.
Condições são favoráveis ao cultivo
De acordo com o engenheiro agrônomo do Grupo Santana, Jackson Kleber Almeida Galdino, a Paraíba, sobretudo o Sertão, foi a escolhida para a primeira experiência com a semente modificada geneticamente, por conta das condições favoráveis ao desenvolvimento da espécie.
“Mato Grosso, Bahia e Goiás podem ser os maiores produtores porque dispõem das maiores áreas de produção, mas a Paraíba é o lugar que possui as melhores condições geográficas, solos férteis e clima bom para o desenvolvimento da planta do algodão. Por conta disso, a parceria entre a Bayer e o Grupo Santana escolheu as Várzeas de Sousa para ser o primeiro campo de semente genética do País. Os resultados obtidos até agora estão sendo muito satisfatórios e, sem dúvidas, iremos desenvolver mais plantios aqui na região através das parceiras”, explicou o engenheiro.
A semente geneticamente modificada, desenvolvida com base em tecnologia agrícola moderna, é capaz de render até três safras ao ano e ainda possui capacidade de resistência às pragas, além de um curto ciclo de vida de até 120 dias. A colheita teve início no dia 26 de dezembro do ano passado e será concluída nos próximos dez dias. Através da utilização de máquinas colheitadeiras, capazes de colher até 48 mil quilos por dia, o Grupo Santana, já colheu mais de 700 toneladas de algodão, das quais 420 equivalem ao peso da semente e 280 ao da pluma. Ainda falta haver colheita em 195 hectares de plantação.
Embora seja empregada a mecanização para a colheita, o grupo também gerou cerca de 130 empregos, para a operacionalização das atividades. Foram necessárias mais 400 pessoas para colher o algodão que a máquina não conseguiu colher por conta das chuvas que caíram na região. No entanto, mesmo com a divulgação das ofertas de emprego, não apareceram pessoas dispostas ao trabalho. A perda estimada foi de 40% produção. A perspectiva é de que serão oferecidos pela empresa 400 novos empregos para atuação nos 1.025 hectares nos próximos anos.
Técnicas serão diferencial
Adubação química, manejo integrado de pragas, capacitação de pessoal, mecanização e semente desenvolvida através de melhoramento genético, são as principais tecnologias que podem ser empregadas no campo para desenvolver a cultura do algodão, segundo o engenheiro agrônomo do Grupo Santana, Jackson Kleber.
Para ele, a inserção dessas técnicas pode fazer da Paraíba um diferencial no setor. “Claro que ainda é cedo, mas com as boas condições climáticas e geográficas que temos, só vai nos faltar a aplicação dessas técnicas. Aqui no Grupo Santana, essas tecnologias já são aplicadas e o resultado disso tem sido positivo. A intenção é levar essas tecnologias para os pequenos produtores, para que eles possam se estimular a produzir o algodão”, disse.
Com as parcerias que serão feitas através do Governo do Estado com iniciativas privadas, como essa do Grupo Santana, os agricultores serão bem mais beneficiados. “É preciso que os produtores paraibanos estejam preparados para esta realidade que traz novas tecnologias e exige novos conhecimentos. “Aquele produtor que tiver acima de 100 hectares poderá fazer parte do projeto. Está aí, na nossa frente, mais uma oportunidade de trabalho e renda para o nosso Estado”, afirma o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária da Paraíba (Faepa), Mário Borba.
Com o objetivo de revitalizar a cultura do algodão no Sertão paraibano, o Grupo Santana pretende expandir a área de atuação, firmando parcerias com órgãos do setor agrícola, como Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária (Emepa) e Sebrae e, sobretudo, com os produtores rurais da região. O grupo pretende fornecer as estruturas necessárias aos produtores, como máquinas, além de capacitação técnica para que eles se adequem às novas tecnologias de produção agrícola e possam desenvolver a atividade algodoeira.
Após a produção, o próprio Grupo Santana se responsabilizará em comprar o algodão produzido pelos agricultores. “Entramos com o fornecimento de estrutura para que eles possam trabalhar e desenvolver a plantação do algodão e depois vamos comprar toda a produção, porque o maior interesse é pelas sementes”, destaca o engenheiro agrônomo do grupo, Jackson Kleber.
A empresa pretende instalar uma usina de beneficiamento de pluma, que irá gerar mais de 400 empregos, ainda neste semestre. “Queremos agregar mais produtores e aumentar a produção paraibana, mas para isso é preciso que todos estejam estimulados”, disse o empresário Ivanilson Araújo, proprietário do Grupo Santana.
Reportagem: Jornal da Paraíba, Daniel Motta

